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  • Fran Campos - em 26/10/2013 19:15:37

    A medicina atual, moderna, além de inúmeros equipamentos de alta tecnologia para exames, diagnósticos e tratamentos, conta com a evolução das técnicas médicas e com o aperfeiçoamento dos médicos. Cada vez mais pessoas vão se tornar idosas, com qualidade de vida, em função da medicina preventiva e curativa. Inúmeras doenças deixarão de existir devido às vacinas e à prevenção.

    O interessante é que grande parte dos medicamentos é baseada na medicina popular, nos princípios ativos de ervas, plantas e minerais. Quem descobriu isso tudo? Os curandeiros indígenas, da América, da África… de todos os continentes.

    O Brasil, com sua esplêndida natureza, é um grande laboratório a céu aberto. As tribos de índios mais isoladas da civilização sempre contam com seus médicos especiais: os curandeiros, os pajés. Chás, xaropes, emulsões, pomadas, dentre outros, têm curado pessoas desde tempos imemoriais, compondo parte da sabedoria popular passada oralmente de geração em geração.

    Muitos dos “missionários” que se embrenham nas florestas da Amazônia, com a desculpa de que estão preocupados com o povo da floresta, nada mais são que biopiratas, que buscam identificar vegetais ou minerais cujos princípios ativos possam ser utilizados na fabricação de medicamentos.

    A espionagem está “na moda” atualmente, mas são estes os espiões que devem ser combatidos, pois o fruto dessa biopirataria vai engordar as finanças dos grandes laboratórios e que, em pouco tempo, estarão levando royalties das vendas de seus remédios no país, sem dar qualquer retorno pelo material biológico daqui retirado.

    Tanto os indígenas, quanto as pessoas de tempos passados e outras, mais humildes, creem nos medicamentos dos curandeiros, fazendo uma ligação entre a medicina e algo sobrenatural. Grande parte das doenças são tratadas como se fossem doenças da alma ou obras de espíritos, mesmo que os sintomas sejam estritamente físicos.

    Por isso, um curandeiro que se preza tem de, além dos tratamentos, fazer algum tipo de reza para que o “paciente” seja induzido a acreditar no efeito do medicamento e do tratamento e seja curado.

    Ouvi este caso há mais de 40 anos: em Tatuí, há muitos anos, havia um curandeiro muito famoso. Não me recordo seu nome... perdeu-se nas névoas do tempo. Diziam que curava tudo. De unha encravada até ferida braba, nome que davam ao câncer antigamente. Vivia metido nas matas buscando ervas para fazer as suas garrafadas, que eram tiro e queda: curavam mesmo. Vinha gente de longe em busca da cura de moléstias.

    Além disso, nem era preciso que a pessoa contasse o mal que sofria, pois ele fazia lá suas rezas e não errava nada. Às vezes até falava dos problemas pessoais de quem o procurava. Dava conselhos, como se fosse um psicólogo.

    Ah, uma pessoa que sabia tudo que estava acontecendo e adivinhava todos os problemas só poderia ser abençoada. Com isto, sua fama crescia e muitos doentes viam-se curados. Aqueles que acontecia de morrer mesmo com o tratamento, era só porque era a vontade de Deus, diziam.

    As garrafas com o líquido curador ficavam prontas em um canto da pequena sala na qual atendia seus “pacientes”. O preparado era sempre o mesmo para qualquer enfermidade. Para beber ou para esfregar no corpo. O mesmo líquido. A explicação do curandeiro era que a reza que ele fazia na rolha é que transformava a garrafada espiritualmente para fazer efeito em determinadas doenças.

    Ninguém tinha dúvidas. O homem era considerado milagroso.

    A dúvida só apareceu quando descobriram um truque. A casa do curandeiro, de pau a pique, era rodeada por um denso bambuzal e ficava um pouco afastada da estrada. Na entrada havia um portão ruidoso que parecia gemer ao abrir.

    Quando as pessoas vinham “se consultar”, ele nunca estava em casa, pois estava sempre procurando ervas nas matas das redondezas. Quem recebia essas pessoas era a sua mulher. Conversavam bastante.

    A mulher, habilmente, ia especulando, especulando, e todos iam contando detalhes de seus problemas, enquanto esperavam o retorno do curandeiro. Só que o danado era esperto e ainda estava lá, escondido em outro cômodo da casa. Como as paredes eram de pau e barro, as frestas permitiam que ele escutasse e visse tudo. Depois de ouvir tudo, silenciosamente saía da casa e, furtivamente, descia até a estrada protegido pelo bambuzal.

    As pessoas, entretidas com a conversa da mulher, não percebiam isso. De repente, ouvia-se o gemido do portão. Nhéééééé! Todos saíam na frente da casa para esperar o homem chegar. A impressão era de que ele vinha de longe, caminhando vagarosamente com um saco de ervas.

    - Boas tardes! - cumprimentava a todos com o típico sotaque do caipira, e entrava na casa. Logo na entrada, já ia diagnosticando este e aquele. Claro que acertava tudo, pois havia escutado todos os detalhes momentos antes.

    As pessoas ficavam maravilhadas, ouvindo aquele homem “acertando” seus problemas nos mínimos detalhes. Compravam as garrafas cheias dos remédios preparados pelo homem, que proferia algumas rezas no momento de colocar a rolha, e que, com um tição, marcava uma cruz no topo da rolha.

    Ao sair, satisfeitos, depositavam alguns víveres e dinheiro em um cesto estrategicamente disposto perto da porta, à vista de todos. Iam todos felizes, achando que já estavam curados. E muitos foram realmente curados, por diversos outros motivos, principalmente devido à pouca gravidade de sua doença. Quando descobriram que ele era mais um charlatão, ninguém mais o procurou. Logo desapareceu da cidade e, provavelmente, foi buscar tolos em outras paragens.

    Hoje, porém, muitos caem nessa mesma conversa. Vez por outra, surge aqui e ali milagreiros que atraem incautos, principalmente quando há uma mistura de curas com simulação de mediunismo, dando um ar sobrenatural, mágico.

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